Amor efémero

Publicado: 6 de março de 2013 em Contos, Textos

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Um dia mais tarde, vários anos depois de um amor eterno que acabou sem esperança, encontram–se por acaso num café onde costumavam ir. Como estão ambos sozinhos, sentam-se na mesma mesa de antigamente a tomar uma bica saudosa. Para matar saudades, diz ela, divertida com a coincidência de se acharem ali inadvertidamente.

Pedem um café ao mesmo empregado de antigamente, este afasta-se e ficam a observar-se em silêncio, momentaneamente sem nada que dizer, sem palavras para exprimir a sua perplexidade, sopesando os anos que passaram sem se verem, recordando aquela altura em que não havia mais nada, mais ninguém, para eles, senão os dois.

Valeu a pena?, pergunta-lhe ela de chofre, ainda a sorrir, já sem a mágoa que os anos se encarregaram de diluir. Valeu a pena o quê?, interroga-a ele, sem ter a certeza onde quer chegar. Teres-me deixado. Nunca te arrependeste?

É difícil dizer, afirma, não sei se teria sido mais feliz se tivesse ficado contigo. Mas é bem possível que sim, admite. Ela assente com a cabeça, sem dizer nada, concentrada na tarefa de deitar açúcar no café, de o mexer, pensativa, mas não lhe faz mais perguntas. O que lá vai, lá vai, pensa, sabendo que seria incapaz de voltar a amá-lo depois de ele ter traído o amor deles, de ter quebrado uma união tão forte que os obrigava a procurarem-se com uma desesperada e intensa felicidade. Mas um dia ele desistiu e ela percebeu que a tinha enganado, mentira-lhe, pois só estivera preso a uma emoção e a nada verdadeiramente perene.

Enquanto ali estão, falam deles, das suas vidas, do que fizeram, do que andam a fazer, põem a conversa em dia. Depois despedem-se com um beijo simples de amigos, com uma promessa de tomarem outro café em breve, sabendo ambos que não é para cumprir, que isso não acontecerá.

Separam-se à porta, vai cada um para seu lado. Está a chuviscar e ele sobe as abas do casaco, encolhe-se, afasta-se a correr em direção ao carro. Ela, sem pressa, recusou uma boleia, abre o chapéu-de-chuva e põe-se a caminho. Pára à beira do passeio, à espera do verde para os peões, a meditar na indiferença que ele lhe provocou hoje, espantada com o amor que lhe tivera no passado, quando se lembrava dele por tudo e por nada, a todas as horas do dia.

Reflete em como tudo é efémero, até o amor vivido com uma entrega total. A paixão esfumou-se e, por ele, só lhe resta uma ténue estima, uma leve nostalgia. O sinal muda, ela abana a cabeça a sorrir sozinha, desconcertada, atravessa a rua e, ao chegar ao outro lado, já vai distraída a pensar no que tem de fazer a seguir.

Por: Thiago Rebelo, escritor

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